O que é layer shifting e por que ele acontece
Layer shifting é o deslocamento lateral das camadas no meio da impressão. A base de conhecimento da Prusa o descreve como um defeito em que as camadas saem da posição prevista. Quase sempre, a origem é um movimento anormal do eixo X, do eixo Y ou dos dois. A partir desse ponto, tudo o que vem por cima fica fora do lugar. O resultado é um degrau visível na lateral da peça.
O motivo de a impressora “não perceber” o erro está no tipo de motor. A maioria das impressoras de mesa usa motores de passo sem sensor de posição. Ou seja, a placa envia os pulsos e assume que o eixo andou exatamente o que foi pedido. Se alguma coisa trava o movimento ou se a polia gira em falso, o firmware continua trabalhando com a posição antiga. Assim, o layer shifting aparece sem nenhum alerta.
Como ler o padrão do layer shifting
O formato do degrau dá pistas sobre a causa. Segundo a Prusa, uma polia solta ou desalinhada costuma ser a principal causa do layer shifting em forma de escada, que se repete em várias camadas. Já um degrau único e grande combina mais com uma colisão do bico contra a peça. A própria Prusa associa esse tipo de choque a bordas que empenam para cima durante a impressão.
Nas impressoras CoreXY, como a Prusa CORE One, a leitura muda um pouco. A fabricante explica que um movimento irregular só no X ou só no Y aponta para a tensão das correias. Por outro lado, um problema na diagonal aponta para o motor ou a polia daquela diagonal. Por isso, vale testar o movimento à mão com a impressora fria e desligada, inclusive nas duas diagonais.
Causas mecânicas do layer shifting
Polias e parafusos de fixação
A Prusa coloca as polias no topo da lista de suspeitos. Cada polia do motor tem dois parafusos de fixação, e os dois precisam estar apertados. Além disso, um deles deve ficar sobre a parte plana usinada no eixo do motor. Se o parafuso apertar sobre a parte redonda, a polia pode escorregar e o eixo deixa de acompanhar a rotação do motor com precisão.
Para conferir sem desmontar muita coisa, a Prusa sugere um teste simples. Segure o eixo do motor com um alicate, aproveitando a parte plana, e tente mover o carro ou a mesa com a mão. Se houver folga ou movimento do eixo, a polia está solta ou a correia está frouxa. Na MINI, a fabricante indica uma chave Allen de 2 mm para esses parafusos, mas o tamanho pode variar em outros modelos.
Tensão das correias
Correia frouxa causa deslocamento, mas correia apertada demais também. No guia de tensão da XL, a própria Prusa avisa que uma correia tensionada em excesso pode provocar layer shifting. Portanto, apertar ao máximo não é solução.
Como referência prática, a fabricante diz que a correia deve soar como uma nota grave de baixo quando beliscada. Também deve ser possível juntar os dois lados com o polegar e o indicador, sentindo um pouco de resistência. Para mais precisão, a Prusa oferece um afinador de correias online que mede a frequência do som pelo celular. Na CORE One, por exemplo, o guia indica 92 Hz para a correia inferior. Esse número, no entanto, vale só para aquele modelo.
Obstruções, trilhos e roldanas
Antes de mexer em qualquer ajuste, procure o óbvio. A Prusa cita pedaços de filamento enrolados na correia, geralmente perto da polia do eixo Y. Também menciona feixes de cabos ou abraçadeiras que encostam na estrutura antes da hora. Qualquer um deles cria resistência suficiente para o motor perder passos.
Nas máquinas com barras lisas, a fabricante recomenda verificar se não há riscos profundos e se os rolamentos estão lubrificados. A barra deve ser limpa com papel toalha antes de receber lubrificante novo. Segundo a Prusa, o ideal é o lubrificante da própria marca, mas uma graxa de uso geral à base de lítio também funciona bem.
Já nas impressoras com roldanas em perfis V-slot, como a linha Ender, o ajuste é feito pelas porcas excêntricas. Guias de manutenção da comunidade descrevem o ponto certo assim: sem folga no carro, mas com a roldana ainda girando com o dedo. Para testar, segure o carro parado enquanto gira a roldana. Se a roldana trava, a porca está apertada demais e o motor passa a trabalhar contra esse atrito.
Cuidados ao limpar com álcool isopropílico
O álcool isopropílico é comum na limpeza de trilhos e perfis, mas exige cuidado. As fichas de segurança do produto o classificam como líquido e vapor altamente inflamáveis. Segundo elas, o álcool também causa irritação ocular grave e pode provocar sonolência ou tontura. Além disso, elas pedem que o álcool fique longe de calor, faíscas, chamas e superfícies quentes, e que o local tenha ventilação adequada.
Na prática, isso significa limpar com a impressora desligada da tomada e com o bico e a mesa já frios. Também vale usar óculos de proteção, manter o frasco fechado e não deixar panos encharcados perto da eletrônica.
Causas elétricas do layer shifting
Corrente do driver e o cálculo da Vref
O driver limita a corrente que chega ao motor, e corrente baixa demais significa torque insuficiente. No A4988, a Pololu publica a fórmula: Vref = 8 × corrente máxima × resistor de sensoriamento (Rcs). Um detalhe importante é que o valor do resistor muda conforme a placa. Segundo a Pololu, as unidades fabricadas desde 2017 usam 0,068 Ω, e as anteriores usavam 0,050 Ω. Já a wiki RepRap registra que muitas cópias genéricas usam 0,1 Ω.
Essa diferença muda bastante o resultado. Para um limite de 1 A, a mesma fórmula leva a três valores de Vref diferentes:
| Resistor de sensoriamento (Rcs) | Vref para limite de 1 A |
|---|---|
| 0,050 Ω (Pololu antes de 2017) | 0,40 V |
| 0,068 Ω (Pololu desde 2017) | 0,54 V |
| 0,1 Ω (comum em cópias genéricas) | 0,80 V |
Por isso, antes de girar o trimpot, leia o valor impresso no resistor da sua placa e consulte a corrente nominal do motor. A Pololu lembra ainda que, em passo completo, cada bobina recebe cerca de 70% do limite configurado.
No TMC2209, a corrente costuma ser definida por software, já que o chip aceita configuração pela interface UART, descrita no datasheet. Nesse caso, o ajuste fica no firmware ou na configuração da placa, e não em um trimpot. Em impressoras com firmware próprio, como as da Prusa, existe ainda o modo de energia. A fabricante recomenda o modo normal em vez do modo silencioso para peças grandes ou complexas. Além disso, avisa que, nas MK, a detecção de colisão não funciona no modo silencioso.
Proteção térmica dos drivers
Corrente alta demais esquenta o driver, e aí entra a proteção térmica. O datasheet do TMC2209 define, na configuração padrão, um pré-aviso de superaquecimento em 120 °C e o desligamento em 143 °C. Depois de desligar, o driver permanece desativado até a temperatura cair abaixo do nível de pré-aviso. Em outras palavras, não é uma pausa de milissegundos: o motor pode ficar sem força por tempo suficiente para estragar a impressão.
Por esse motivo, um layer shifting que só aparece depois de horas de impressão merece uma olhada nos registros do firmware. O Marlin tem um comando específico, o M911, que informa a condição de pré-aviso dos drivers TMC. O A4988 também tem desligamento por superaquecimento. Segundo a descrição da placa da Pololu, reproduzida pela revendedora Little Bird, ele suporta cerca de 1 A por bobina sem dissipador e até 2 A com dissipador.
Motor quente nem sempre é defeito
É comum ler que o motor está com problema se não for possível manter a mão nele por alguns segundos. A documentação de fabricantes de motores de passo aponta outra coisa. A Oriental Motor explica que seus motores usam isolamento classe B, com limite de 130 °C nas bobinas. Como a carcaça fica cerca de 30 °C abaixo das bobinas, eles podem operar com a superfície a até 100 °C. A mesma empresa, contudo, recomenda trabalhar na menor temperatura possível, porque o calor reduz a vida útil dos rolamentos. A estimativa é de 50 mil horas com a carcaça a 80 °C.
Assim, o teste da mão não serve como diagnóstico e ainda traz risco de queimadura. Se a suspeita é temperatura, um termômetro infravermelho ou de contato dá uma leitura melhor. A Oriental Motor também sugere montar o motor sobre uma placa metálica que conduza bem o calor.
Cabos e conectores
Fios partidos por dentro do isolamento podem causar falhas intermitentes, que aparecem só em certas posições do eixo. Um teste de continuidade com multímetro, movendo o chicote à mão, ajuda a encontrar esse tipo de defeito. Antes, porém, desligue a impressora da tomada. A Pololu alerta que conectar ou desconectar um motor de passo com o driver energizado pode destruir o driver.
Quando o layer shifting vem do fatiamento
Colisões do bico contra a peça
Nem todo layer shifting nasce na mecânica ou na eletrônica. A Prusa lembra que peças com saliências são mais difíceis de imprimir, porque algumas bordas empenam para cima e o bico pode bater nelas. O mesmo pode acontecer com porcentagens de preenchimento muito baixas. Como soluções, a fabricante sugere cortar o modelo para evitar a saliência, aumentar a ventilação da peça ou aumentar a retração.
O Z-hop, chamado de “Lift Z” ou “Travel lift” no PrusaSlicer, levanta o bico durante os deslocamentos. Com isso, reduz o risco de raspar na peça. Mesmo assim, ele tem custo. Guias de fatiamento apontam que o recurso pode aumentar os fiapos de filamento e o tempo de impressão, já que acrescenta movimentos verticais. Além disso, ele age nos deslocamentos, e não nas linhas que estão sendo impressas, então não resolve sozinho uma borda empenada.
Velocidade e aceleração
Velocidades e acelerações altas exigem mais torque, principalmente em máquinas com mesa pesada no eixo Y. Não existe, porém, um número universal: uma impressora moderna, com firmware e mecânica preparados para isso, trabalha com valores muito diferentes dos de uma máquina mais antiga. O ponto de partida mais seguro é o perfil oficial do fabricante para o seu modelo. Se os degraus aparecem em peças grandes, a Prusa recomenda, no caso da MINI, reduzir a velocidade pelo menu de ajuste durante a impressão.
Tabela de diagnóstico rápido do layer shifting
| O que aparece na peça | Onde olhar primeiro |
|---|---|
| Degraus repetidos em escada, sempre na mesma direção | Parafusos da polia do motor e tensão da correia daquele eixo |
| Um degrau único, às vezes com um estalo | Colisão do bico com borda empenada ou preenchimento baixo |
| Deslocamento só depois de horas de impressão | Proteção térmica do driver e ventilação da placa |
| Falha em posições específicas do eixo | Obstrução no trajeto, roldana travada ou cabo partido |
| Problema só na diagonal, em CoreXY | Motor e polia que controlam aquela diagonal |
Perguntas frequentes
Como saber se o layer shifting foi no eixo X ou no Y?
Observe para onde o degrau se deslocou. Em uma impressora cartesiana comum, deslocamento para a esquerda ou para a direita indica o eixo X. Já o deslocamento para a frente ou para trás indica o Y. Em máquinas CoreXY, os dois motores trabalham juntos, então a Prusa sugere testar também o movimento nas diagonais.
Qual é a Vref certa para um motor NEMA 17?
Depende do driver, do resistor de sensoriamento e da corrente nominal do motor. No A4988, a fórmula da Pololu é Vref = 8 × corrente × Rcs. Para 1 A, isso dá 0,40 V, 0,54 V ou 0,80 V, conforme o resistor seja de 0,050, 0,068 ou 0,1 Ω.
Por que a impressora só perde passos em impressões longas?
Uma causa possível é a proteção térmica do driver. No TMC2209, ela desliga o driver em 143 °C na configuração padrão. Depois, ele só volta a funcionar ao esfriar abaixo de 120 °C. Verifique a ventilação da placa e os registros do firmware.
Motor de passo muito quente está com defeito?
Não necessariamente. A Oriental Motor informa que seus motores podem operar com a carcaça a até 100 °C, embora temperaturas menores prolonguem a vida dos rolamentos. Meça com termômetro em vez de tocar, para evitar queimaduras.
Apertar mais a correia resolve o layer shifting?
Só se ela estiver frouxa. A Prusa avisa que uma correia apertada demais também pode causar layer shifting. O ideal é seguir o método de tensão do fabricante do seu modelo.
Fontes
- Prusa Knowledge Base, Layer shifting
- Prusa Knowledge Base, ajuste de tensão das correias da XL
- Prusa Knowledge Base, ajuste de tensão das correias da CORE One
- Pololu, A4988 Stepper Motor Driver Carrier (limite de corrente, Vref e alertas)
- Little Bird Electronics, descrição do A4988 da Pololu (proteções e corrente por bobina)
- RepRap Wiki, Pololu stepper driver board (resistores em cópias genéricas)
- Analog Devices (Trinamic), datasheet do TMC2209